Quem ainda dá uma chance pra tevê aberta acompanhou, este final de semana, o fim da novela Insensato Coração. Durante alguns meses, a Rede Globo surpreendeu ao abordar, em horário nobre, questões-tabu como homofobia. Será mesmo? Um dos casais que compôs a trama, Hugo e Eduardo, serviram de exemplo afim de encorajar quem espera a hora certa para sair do armário. Os meninos enrolaram, demoraram, dormiram juntos e até casaram! Mas... cadê a cena?
A Globo é hipócrita o suficiente para não exibir um beijo de dois homens. Todo casal de novela nos leva a esperar a clássica cena do encontro, quando a dupla supera dificuldades e finalmente se beija, no simbolismo de resolver tudo daqui em diante. Não muito diferente da tensão vista com os casais héteros, em sua vez os meninos são vistos saindo da boate. Declarações de amor no carro, café da manhã no dia seguinte... mas beijo que é bom, necas. Fiquei aguardando ansiosamente até o fim da trama quando nesta quinta feira os dois se casaram. Casar pode, como o Supremo Tribunal Federal mesmo aprova. Ainda assim, na hora do "até que a morte os separe" apenas um frio abraço. Afinal qual é o problema?
O casalzinho vinte Marina e Pedro vive no close, em carne e osso e lingerie. O rala e rola entre a dupla hétero cumpre muito bem o papel de defender casamento, família e propriedade. Moral obviamente não é a questão, já que vale até a pegação entre os menores de idade Serginho e Olívia. Até o namoro aberto de André e Leila e o sexo infiel de Eunice e Ismael parece mais 'decente' aos olhos da emissora do que o amor entre dois indivíduos nada afetados. O Brasil está pronto para observar a (falta de) celulite e moral da personagem de Debora Seco, a psicopatia fria de Leo, o assassinato por espancamento cometido por Vinícius, mas a edição não poupa cortes para poupar o telespectador do beijo gay.
Como tratar a questão séria da homofobia, ou melhor, como sair de um termo técnico, politicamente correto, para a vida real, de pessoas que sofrem diariamente o preconceito, a exclusão, a impossibilidade de um amor real, normal, público? Comportamento absurdo não é apenas o assassinato. A hipocrisia, o medo e a falta de compromisso dos meios de comunicação são suficientemente graves para provocar uma revolta. E cá estou eu, uma mulher, branca, heterosexual que, embora talvez não sofra tão diretamente o preconceito diário a que muitos dos meus amigos são submetidos, fica triste quando constata os atrasos de nossa cultura. Convido a todos que estejam lendo este texto a postarem no twitter fotos de beijos apaixonados com seu companheiro(a) de mesmo sexo marcando @rede_globo #beijalogo. E viva a internet sem censura!
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